23 de dezembro de 2009
O Clube dos Meninos Que Mentem
Criou um punhado de rimas fáceis. Rabiscou todas num papel de carta. Amassou um, dois, três, quatro. O quinto ficou bom. Olhou de lado o relógio que cochichava as horas. Três e meia. Correu até a varanda e esperou. De longe o céu cobria o mundo inteiro - como vem fazendo há tempos. Mal dava para a vista alcançar, pois ele via além. Do parapeito da janela até a rua, cento e cinquenta metros de uma queda adiante. Avoa, a gente, mãe? Lembrou de quando perguntou isso a mulher que lhe pôs vida. E a mãe, tudo lhe explicava em silêncio. Mas para saber do silêncio, um bom silêncio se havia de ter. Suspirou a lembrança, até ela se tornar um baço pedaço de antes. O carro vermelho passou, o cachorro latiu e um passarinho rasgou o quadro que se formava entre o vão de uma árvore e outra, tudo no horário de sempre: três e trinta e sete. Sorriu satisfeito. Ele tinha razão. Voltou aos rabiscos, a ponta do lápis já gasta do leva e traz de palavras, a ponta dos dedos percorrendo as linhas retas da pauta. Leu em voz alta: salve agora meu coração, peça, empreste, tome de volta o meu perdão. Riu. Repetiu em voz grossa, agora fina, engoliu a seco a risada. A casa crescia cada dia mais. Devorada pela sujeira de um menino só. Mortos se erguiam quando bem queriam. Aquilo era deles. Olhou de lado as fotos que cresciam nos porta-retratos. Olhou o relógio e já não era mais o tempo certo de antes. Nem de depois. Já não era tempo de nada. Coçou a cabeça. Amassou a quinta folha. Bebeu de um gole o que lhe foi história. E o pai, mãe?Foi embora? Lembrou quando perguntou isso a mulher que quase lhe tirou a vida. Mas nunca soube a resposta. Elas vinham em silêncio e de silêncio ele nunca foi professor.
22 de dezembro de 2009
Trago um papel amassado entre os dedos. Suado de sol. Choroso de passado. O que anoto, leio meses depois. Penso e repenso, como se desenhasse no ar. Meu sorriso vale ouro.
20 de dezembro de 2009

Tinha as mãos delicadamente grossas, como casca d árvore. Loira dos olhos verdes, a boca no formato de gomos de mexirica. Peitinhos de pitomba - como diria Francisco Buarque de Holanda. E um saboroso mau humor matutino que quase sempre se repetia no findar do dia. Queria ser magra. Mas não era gorda. Tinha ancas, dessas que os moços gostam de se imaginar agarranda, como se fossem alças de uma bolsa cheia de dinheiro - é minha e ninguém tasca. Mas tascavam. São as coisas da vida, do tempo, da roda que gira, gira, gira sem voltar para o mesmo lugar - ninguém quer isso pra si. Segundas, terceiras, quartas e quintas chances são perda de tempo. De repetidos já bastam os dias da semana, que são como gêmeos intermináveis ou miligêmeos. Segura na minha mão, ela pediu um dia. Segurou. Quis saber porque, mas com os olhos. Francamente, querer saber porque as moças querem que seguremos suas mãos é uma coisa que beira a canalhice. Canalha, ela quis dizer, pois havia lido os olhos dele: par de castanhas portuguesas, marrons como tronco de árvore. Ele encolheu os ombros, pedindo desculpas. Tinha as mãos finas, como papel de seda, desses que fazem pipas. Tinha jeito daqueles que espiam as pessoas por entre as brechas que a vida dá. Frestras de portas, janelas entreabertas, o sono depois do almoço. Nisso via pai, mãe, tia e principalmente filhas. As filhas dos outros. Umas irmãs, outros nem um pouco. Via de anotar na retina detalhes como a curva que os pêlos de uma faziam rente ao umbigo ou como a boca d'outra se fingia de perfeita tendo pequeninas falhas. E via fios de cabelo, orelhas, pontas de nariz, sentia perfumes. Via mãos,um par delas, grosso.
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